Boletim do Agronegócio | Junho de 2026
- Mariella F. Maccari de Camargo

- 27 de jul.
- 4 min de leitura
O mês de junho confirmou um cenário de elevada produção no agronegócio brasileiro, mas também reforçou a necessidade de atenção aos custos, à logística e à estratégia de comercialização.
A safra recorde representa uma notícia positiva. Entretanto, produzir mais não significa necessariamente obter maior rentabilidade. O resultado efetivo depende dos preços recebidos, do custo de produção, do frete, da armazenagem e das condições financeiras e contratuais assumidas pelo produtor.
Brasil caminha para nova safra recorde
Segundo a estimativa de junho da Companhia Nacional de Abastecimento — Conab, a produção brasileira de grãos na safra 2025/26 deve atingir 358,6 milhões de toneladas, crescimento de 1,8% em relação ao ciclo anterior.
A soja permanece como o principal destaque, com produção estimada em 180,3 milhões de toneladas, aumento de 5,1%. Já a produção total de milho foi projetada em 140,5 milhões de toneladas, redução de 0,5% no comparativo anual.
Apesar do crescimento da produção nacional, o comportamento das culturas foi diferente. Enquanto a soja avançou, o milho de segunda safra apresentou redução estimada de 4,7%, parcialmente compensada pelo aumento da primeira safra.

Mato Grosso mantém a liderança nacional
Mato Grosso permaneceu como o maior produtor de grãos do Brasil, com estimativa de 111,4 milhões de toneladas, aproximadamente 31% de toda a produção nacional.
Na sequência aparecem Paraná, com 46,8 milhões de toneladas; Rio Grande do Sul, com 36,8 milhões; Goiás, com 34 milhões; e Mato Grosso do Sul, com 29,9 milhões.
O estado também lidera o Valor Bruto da Produção Agropecuária, com aproximadamente R$ 213,5 bilhões, equivalente a 15,2% do total brasileiro.
Esses números demonstram a importância econômica de Mato Grosso, mas também evidenciam a dimensão dos riscos envolvidos. Operações maiores exigem maior controle sobre contratos, crédito, garantias, armazenagem, transporte e regularidade ambiental e fundiária.
Soja, milho e decisões de armazenagem
O Boletim Logístico da Conab apontou que os baixos preços atribuídos à soja, associados aos custos de produção e armazenagem, reduziram o interesse dos produtores em manter o grão estocado.
A estratégia observada foi acelerar a comercialização da soja para reduzir despesas e liberar espaço nos armazéns.
Para o milho, o comportamento foi diferente. Parte dos produtores considerou armazenar o cereal para comercializá-lo no segundo semestre, apostando em uma possível valorização durante a entressafra.
Essa decisão deve considerar não apenas a expectativa de preço, mas também o custo financeiro do capital imobilizado, as despesas de armazenagem, as perdas operacionais e a necessidade de caixa da propriedade.
Fretes continuam pressionando as margens
A intensificação da colheita do milho manteve elevada a demanda por transporte em Mato Grosso. Em junho, aproximadamente 10% da colheita estadual do milho de segunda safra estava concluída, com concentração dos trabalhos entre junho e julho.
Na pesquisa da Conab, com preços coletados em maio, o frete entre Sorriso e Santos alcançou R$ 510 por tonelada, aumento de 9% em relação ao mesmo período de 2025.
Entre Sorriso e Rondonópolis, o valor chegou a R$ 190 por tonelada. Para Miritituba, o preço foi de R$ 320, enquanto a rota entre Sorriso e Santarém atingiu R$ 420 por tonelada.
A própria Conab esclarece que esses valores resultam de uma pesquisa de monitoramento e não constituem preços oficiais de referência de mercado.
Para o produtor, o frete deve ser analisado antes da contratação da venda. Preço elevado no destino nem sempre significa melhor resultado quando são descontados transporte, armazenagem, pedágios, seguro e eventuais perdas de qualidade.
Valor da produção permanece elevado
O Valor Bruto da Produção Agropecuária foi estimado em aproximadamente R$ 1,4 trilhão em junho de 2026.
Desse total, R$ 893,1 bilhões correspondem às lavouras e R$ 511,1 bilhões à pecuária. A soja lidera o indicador, com R$ 335,8 bilhões, seguida por bovinos, milho, cana-de-açúcar e frangos.
O VBP, entretanto, representa uma estimativa de faturamento bruto dentro dos estabelecimentos rurais. Ele não corresponde ao lucro do produtor, pois não desconta custos de produção, fretes, juros, armazenagem e demais despesas.
Produção elevada exige gestão
Junho confirmou a força do agronegócio brasileiro e a liderança de Mato Grosso. Ao mesmo tempo, demonstrou que a rentabilidade depende cada vez mais da capacidade de planejar a comercialização e controlar os riscos da operação.
Além da produtividade, o produtor precisa acompanhar o custo por hectare, o preço líquido após o frete, a necessidade de caixa, a capacidade de armazenagem, o endividamento e as obrigações assumidas nos contratos.
A produção recorde cria oportunidades. Mas a forma como ela será financiada, transportada, armazenada e comercializada determinará quanto desse resultado permanecerá efetivamente dentro da propriedade.
Sobre a autora
Dra. Mariella F. Maccari de Camargo é Sócia-Proprietária do Escritório de Advocacia Maccari de Camargo, especializado em Direito Ambiental, Agrário e do Agronegócio. É também Especialista em Direito do Agronegócio pela Fundação Escola Superior do Ministério Público de Mato Grosso - FESMP/MT (2021) e Membra da Comissão do Agronegócio, Comissão do Meio Ambiente e Comissão de Direito Fundiário da OAB/MT. Atua há mais de 9 anos defendendo o Produtor Rural, garantindo direitos e segurança jurídica para todo o ecossistema do agronegócio.


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