Agronegócio

Boletim do Agronegócio | Maio de 2026

Mariella F. Maccari de Camargo
Mariella F. Maccari de Camargo

O boletim do agronegócio de maio confirma um cenário de força produtiva, liderança de Mato Grosso e aumento da pressão sobre custos, crédito rural e regularização documental.

Para produtores rurais e empresas do agro, maio de 2026 trouxe duas mensagens centrais.

A primeira é positiva: o Brasil caminha para uma safra recorde de grãos, com Mato Grosso novamente no centro da produção nacional.

A segunda exige atenção: produzir muito não basta. O produtor precisa proteger margem, crédito, documentação rural e segurança jurídica.

Neste artigo, você verá os principais dados de maio, com foco em safra, VBP, custos de produção, CCIR-2026, crédito rural e riscos práticos para o campo.

Panorama econômico do agro em maio

Maio reforçou o peso do agronegócio na economia brasileira.

O Valor Bruto da Produção Agropecuária, conhecido como VBP, foi estimado em R$ 1,4 trilhão em maio de 2026. As lavouras representaram R$ 908,8 bilhões, enquanto a pecuária somou R$ 510,2 bilhões.

Esse dado mostra o tamanho da renda gerada dentro dos estabelecimentos rurais.

Mas o VBP não é lucro.

Ele representa uma estimativa de faturamento bruto, calculada com base na produção e nos preços recebidos pelos produtores.

Por isso, precisa ser lido junto com outros fatores:

No campo, a pergunta estratégica não é apenas “quanto eu produzi?”.

A pergunta correta é: quanto dessa produção virou margem protegida?

Mato Grosso lidera a produção rural

Mato Grosso manteve posição de destaque no agronegócio nacional.

O estado apareceu como líder no Valor Bruto da Produção, com projeção entre R$ 206 bilhões e R$ 213,5 bilhões em 2026, o que representa cerca de 15% da receita agropecuária nacional.

Essa liderança impacta diretamente regiões como Cuiabá, Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Primavera do Leste, Campo Novo do Parecis e Rondonópolis.

São polos que concentram soja, milho, algodão, pecuária, armazenagem, crédito rural, logística e contratos de grande valor.

O protagonismo mato-grossense também aumenta a necessidade de governança.

Quanto maior a operação, maior o risco se houver falhas em CAR, CCIR, matrícula, contratos, licenças, georreferenciamento ou garantias bancárias.

O produtor rural que movimenta milhões por safra não pode tratar documentação como detalhe.

No agro atual, documento em ordem também é ferramenta de produção.

Safra recorde exige mais gestão

O 8º Levantamento da Conab, divulgado em maio de 2026, estimou a safra brasileira de grãos 2025/26 em 357,973 milhões de toneladas. A área cultivada foi projetada em 83,519 milhões de hectares, avanço de 2,2% em relação ao ciclo anterior.

A soja foi o grande destaque.

A produção nacional da oleaginosa foi estimada em 180,129 milhões de toneladas, com crescimento de 5% sobre a safra 2024/25.

O milho total foi projetado em 140,171 milhões de toneladas, com leve queda de 0,7% no comparativo anual.

Esses números mostram uma safra robusta.

Mas também mostram que o produtor precisa evitar leitura superficial.

Safra recorde nacional não significa margem recorde dentro da fazenda.

Pode haver aumento de produção na soja, pressão no milho, redução no algodão em pluma e dificuldades pontuais por região, clima ou janela de plantio.

A gestão precisa ser feita por cultura, talhão, cus

Custos da safra acendem alerta

Um dos pontos mais sensíveis de maio foi o custo de produção.

O Sistema Famato/Senar-MT informou, com base em dados do Imea e do projeto CPA-MT, que as principais culturas agrícolas de Mato Grosso tiveram aumento nos custos para a safra 2026/27.

Na soja, o custeio foi projetado em R$ 4.286,89 por hectare, alta de 1,88% em relação ao mês anterior.

No milho, o custeio subiu 2,32%, pressionado por fertilizantes, corretivos, defensivos e sementes.

No algodão, o custeio foi estimado em R$ 10.642,28 por hectare, alta de 1,05%. O levantamento também apontou que, considerando produtividade média de 119,82 arrobas por hectare de pluma, o produtor precisaria vender a pelo menos R$ 127,09 por arroba apenas para cobrir o Custo Operacional Efetivo.

Esse dado é decisivo.

Ele mostra que o risco da próxima safra começa antes do plantio.

Quando fertilizantes, defensivos e sementes sobem, o produtor precisa revisar o planejamento financeiro, renegociar contratos e calcular o preço mínimo de venda.

O erro é decidir apenas olhando cotação.

A decisão correta considera custo, margem, risco climático, crédito e segurança documental.

Capa do Boletim do Agronegócio de maio de 2026, da Maccari de Camargo

CCIR-2026 e regularidade do imóvel

Maio também trouxe uma atualização importante para imóveis rurais.

A emissão do Certificado de Cadastro de Imóvel Rural, o CCIR-2026, foi liberada em 19 de maio de 2026, às 7h, pelo portal do Incra e pelo sistema eletrônico do SNCR.

O CCIR comprova a regularidade cadastral do imóvel rural no Sistema Nacional de Cadastro Rural.

Ele reúne informações sobre titularidade, área, localização, exploração e classificação fundiária.

Mas é importante destacar: o CCIR tem natureza cadastral e declaratória.

Ele não prova domínio nem posse.

Mesmo assim, sua ausência pode impedir atos essenciais da vida rural, como:

Na prática, o CCIR atualizado se torna indispensável para operações com cartório, banco, cooperativa, sucessão familiar e reorganização patrimonial.

Para averbação ou registro desses atos na matrícula do imóvel rural, o cartório de registro de imóveis competente costuma exigir o CCIR atualizado.

Assim, o CCIR referente ao exercício de 2026 passa a substituir o documento de 2025 nas operações que dependem de regularidade cadastral.

Produtor rural que pretende vender, arrendar, financiar, partilhar ou oferecer imóvel em garantia deve tratar o CCIR como prioridade.

Crédito rural entra em nova fase

Outro ponto relevante de maio foi o avanço do debate sobre crédito rural.

A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei nº 3.123/2025, voltado ao uso de dados públicos para análise de risco em operações de financiamento, seguro e resseguro rural. A notícia oficial da Câmara foi publicada em 12 de maio, e a Frente Parlamentar da Agropecuária registrou a aprovação em 06 de maio.

O texto original previa a criação do Sistema Nacional de Gestão de Risco de Crédito Rural, o SNGRCR.

A ideia central é reduzir a dispersão de informações e permitir análise mais eficiente do perfil de risco do produtor rural.

Sobre a autora

Dra. Mariella F. Maccari de Camargo é Sócia-Proprietária do Escritório de Advocacia Maccari de Camargo, especializado em Direito Ambiental, Agrário e do Agronegócio. É também Especialista em Direito do Agronegócio pela Fundação Escola Superior do Ministério Público de Mato Grosso – FESMP/MT (2021) e Membra da Comissão do Agronegócio, Comissão do Meio Ambiente e Comissão de Direito Fundiário da OAB/MT. Atua há mais de 9 anos defendendo o Produtor Rural, garantindo direitos e segurança jurídica para todo o ecossistema do agronegócio.